Um desfile de múmias para apagar a Primavera

Imagem do desfile de múmias no Egito

O governo do Egito ofereceu ao mundo um espetáculo deslumbrante de luzes, cores, música e história, com um desfile de múmias por cinco quilômetros, entre dois museus, no entardecer do dia 3 de abril.

Protegidos em cápsulas com nitrogênio, 18 reis e 4 rainhas foram transportados em carros especiais, com pompa e circunstância, do Museu Egipcío para o Museu Nacional da Civilização Egípcia.

Apaixonada desde criança pela história desse povo fantástico, confesso que fiquei inicialmente encantada por aquela belezura toda, mas as engrenagens da memória começaram a funcionar e acabaram por resgatar outro espetáculo - esse, macabro - ocorrido naquela região, uma década atrás, em 17 de dezembro de 2010.

Nessa data, o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, em frente ao prédio do governo, na Tunísia, em um protesto extremo contra a repressão, corrupção e desemprego.

Bouazizi só queria de volta seu carrinho de frutas, para trabalhar em paz, sem precisar pagar propina a ninguém.

Ele morreu alguns dias depois, mas seu ato de desespero despertou e levou as pessoas às ruas para protestar contra a ditadura. A força popular derrubou o presidente Zine a-Abidine Ali em cerca de um mês.

A partir da “Revolução de Jasmim” na Tunísia, um desejo coletivo de liberdade, em diversos países daquela região, deu início ao movimento político que ficou conhecido como a “Primavera Árabe” e atingiu com força o Egito, a maior e, possivelmente, a mais famosa das nações árabes.

Nos países envolvidos no movimento, alguns como Jordânia e Marrocos buscaram caminhos e negociações políticas para reduzir os danos do levante popular. Outros não encontraram saída, como a Síria que segue em guerra até hoje e já perdeu mais de 380 mil pessoas.

Voltando ao Egito, a praça Tahir, na capital Cairo, tornou-se o palco de uma impressionante luta pela democracia. No local, manifestantes foram sitiados por tanques e, ao longo da resistência, centenas de pessoas foram mortas.

Mesmo toda essa repressão não foi suficiente para segurar no comando o ditador Hosni Mubarak. O movimento dos egípcios também foi chamado de Revolução de Lótus.


Esperança que durou pouco

Em 2012, os egípcios foram às urnas para eleger pela primeira vez um presidente, Mohamed Morsi. A esperança não sobreviveu por muito tempo. Morsi, ligado a movimentos mais radicais, trouxe com ele o retrocesso de medidas antidemocráticas e a população, inconformada, voltou às ruas já em 2013.

Para tirar Mohamed Morsi do poder a população, desta vez, contou com o apoio do exército. Abdel Fattah el-Sisi, na época ministro da defesa, se colocou à disposição para restaurar a ordem e acabar com a violência.

Abdel e-Sisi segue no poder até hoje. Em 2018, foi reeleito com mais de 97% dos votos válidos, de uma participação de apenas 41% dos eleitores, em meio a denúncias e rumores de adversários intimidados, presos e espancados.

Por lá, não há liberdade de imprensa e qualquer mínimo sinal de dissidência e crítica ao governo, mesmo com um simples post em uma rede social, pode levar a pessoa à prisão e só Deus sabe a que outros destinos.

Qualquer semelhança pode não ser mera coincidência

Uma coisa é preciso reconhecer: ao reverenciar sua história e riqueza cultural para alavancar o turismo, o Egito marca pontos sobre a atual situação brasileira.

Lembra do nosso Museu Nacional que pegou fogo em setembro de 2018, por falta de manutenção, e foi inteiramente destruído em razão da ausência de sistemas eficientes de contenção de sinistros, nesse caso o fogo?

Enquanto os egípcios reverenciavam os despojos dos reis às margens do Rio Nilo, arqueólogos brasileiros comemoravam a recuperação de um esqueleto de dinossauro de 80 milhões de anos que teve a “sorte” de ser soterrado por toneladas de escombros, o que o protegeu das labaredas.

Labaredas que consomem também as riquezas naturais da Amazônia ao Pantanal. E o que sobrar pode ser destruído por motosserras, falta de fiscalização, esgoto sem tratamento, garimpo ilegal e… ufa, esse tema pede um artigo só pra ele.

Ao terminar a pesquisa para este texto, já não enxerguei mais a beleza no desfile de múmias que teve início justamente na praça Tahrir, o mesmo palco de luta e mortes pela democracia, ocorridas em 2011. Seria coincidência ou a festa suntuosa serviria também para apagar as memórias do ocorrido na praça?

Também é difícil enxergar a luz no fim do túnel para uma nação linda, com mais de 200 milhões de habitantes, porém reduzida a dois pronomes pessoais: nós e eles.

Quem dera na próxima primavera brasileira - a estação mesmo - a gente pudesse renascer como indivíduos conscientes de que são os políticos que nos devem a honra de nos representar e não o contrário.

Que a eles não devemos reverência alguma e deles devemos cobrar, em voz uníssona, trabalho e respeito com nossos recursos, nossos direitos e nossas vidas.

Corrupção, desemprego e repressão são estopins para revoltas populares. E as consequências são imprevisíveis como nos mostra a “Primavera Árabe” ao completar apenas 10 anos.

Maria D´Arc Hoyer é jornalista


Imagem retirada de vídeo do National Museum of Egyptian Civilization

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