Orgulho de ser jornalista, apesar de tudo.

Grupo de pessoas agrupadas em frente a uma casa e com ilustrações sobrepostas de dinossauros
Jornalistas do Vale do Paraíba, em confraternização de fim de ano, em 2016

Tive vários momentos de alegria no decorrer desse dia 7 de abril, por conta das mensagens de cumprimentos que recebi de vários amigos, pela passagem do Dia do Jornalista. Profissão que escolhi muito cedo, por amor às letras e o desejo de fazer a diferença no mundo.

Arrisco dizer que fico mais feliz com esse cumprimento do que pelo de aniversário. Afinal, nascer foi circunstância, mas ser jornalista foi escolha.

Pobre de marré deci, a decisão de ser implicava aguardar o momento de ter as condições financeiras que permitissem a ousadia. Para quem vem da base da pirâmide é uma ousadia fazer faculdade. Até um figurão do governo já disse por aí que acha isso um despropósito. Mas eu queria e fui à luta.

Enquanto esperava os ventos certos para seguir navegando, lia muito, escrevia por hobby e batia cartão na banca de jornais, em frente ao supermercado Planalto - o nome hoje é outro - no retorno da Vila Industrial, perto do PS. Eu batia ponto na banca, aos domingos de manhã para investir meus trocados no calhamaço de papel que era o Estadão.

Voltava para casa, caminhando pela rua Saigiro Nakamura, queixo erguido, me achando importante só de carregar o jornal nos braços. Como se apenas isso levasse os passantes a enxergar em mim o que eu queria ser. Autoestima é quase tudo rs. 

Curiosamente, meu primeiro trabalho como jornalista foi na Folha de S.Paulo. O Estadão veio anos depois, apenas como freelancer, nas folgas do colega Julio Ottoboni, que sugeriu meu nome para cobrir suas ausências, no Vale do Paraíba. 

Foi em um plantão para o Estadão que cobri uma das rebeliões mais longa em São Paulo, no complexo penitenciário de Tremembé. Passado o domingo de plantão pelo jornal, continuei a cobertura para a TV Bandeirantes. Foram dias acampados na frente da penitenciária. Jornalistas e policiais do lado de fora, presos do lado de dentro controlando o presídio. Em um tenso jogo de estratégia e desespero. 

Não foi minha primeira nem a única cobertura de rebelião em cadeia e presídio, mas puxei a lembrança para registrar a época emblemática, na qual jornalistas ainda serviam como baliza da neutralidade. Tínhamos, em certo grau, o respeito da polícia, dos presos e dos políticos. O medo de realizar nosso trabalho não nos acompanhava. 

Peguei o entardecer do que se pode chamar de jornalismo raiz. O tempo das vigílias em dias de chuva na rua da casa de governadores eleitos. De fazer matéria em outra cidade e esperar na fila do orelhão, roendo as unhas de olho no relógio, para ditar o texto escrito no bloco para a redação. E, depois, enfrentar o olhar furioso dos que esperavam enquanto a gente ditava a matéria em uma eterna ligação a cobrar. Sem celular, sem Google, sem WhatsApp.

Esse tempo ficou para trás. A internet, com suas facilidades, ajuda, mas também complica, ao dar voz a tanta gente despreparada para empunhar a palavra escrita. Hoje, jornalistas são agredidos, física e verbalmente, em praça pública. Agressões que vêm desde anônimos sem expressão até a mais alta representação do Estado. Colocam na mesma cesta suja dos seus modos tortos de pensar, os bons e maus profissionais. Classificam a todos pelo viés de suas ideologias sem filtro.

Até colegas, vez ou outra, contribuem para esse linchamento público, que tenta a qualquer custo impor a desonra a uma profissão essencial para a democracia. O que muito me espanta, pois quem já esteve por dentro sabe como a banda toca e que, apesar de sermos todos humanos e falhos, sempre nos dedicamos à missão de compartilhar informação e as verdades das versões dos envolvidos, fazendo o nosso melhor.  

O que será feito com a informação por quem a recebe, é outra história. São pessoas com as mais diferentes formações e histórias de vida, que pesarão em suas interpretações. E todas têm o direito de concordar ou discordar do que um jornalista escreve. Mas ninguém tem o direito de impedi-lo de escrever, noticiar e, principalmente, de ter acesso às informações de interesse público.

Grupo de pessoas, sorridentes
Foto: Arquivo pessoal / Encontro de jornalistas formados em 1991, Universidade de Taubaté - SP 
E é por tudo isso que carrego com orgulho o título de jornalista, com diploma em faculdade e tudo, conquistado juntinho com essa turma da foto acima. Tenho colegas que não frequentaram os bancos universitários e desempenham o ofício com maestria e ética. Mas, diante da velocidade das coisas na internet, defendo que pelo menos um bom curso de ética, gramática e ortografia seja exigido de quem escreve para veículos de mídia profissionais.

Enfim, sou só uma escriba em fim de carreira a que poucos dão ouvidos. Mas um só leitor já faz minha alegria. Concordando ou discordando comigo. E jornalista que se preza segue a diretriz atribuída ao pensador francês Voltaire, mas que uma reportagem na revista Super Interessante atribui à sua biógrafa, a inglesa Evelyn Beatrice Hall: “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.”

E não sei se já consegui fazer alguma diferença no mundo com a minha profissão, mas vou seguir tentando. É o que conta no fim. 

Mulher de cabelos cacheados e grisalhos, usando óculos
Maria D´Arc é jornalista


 


Postar um comentário

0 Comentários